Você está em Artigos

Diálogos e interações com as crianças de 0 a 3 anos: desafios para as instituições de educação infantil

Autor: Olavo Fernando Tamburus
Data: 16/09/2015

O trabalho com as crianças de 0 a 3 anos nas instituições de educação infantil é um desafio na atualidade. A partir da compreensão da criança como sujeito de direitos e da educação infantil como primeira etapa da educação básica, algumas ideias que dão suporte às práticas com os pequenos têm sido questionadas a mudar de forma.

Ao longo da nossa história, a creche foi considerada como "mal necessário", ou seja, a solução possível para atender as crianças de 0 a 3 anos, tendo em vista o trabalho da mãe fora do contexto familiar. Tratava-se de um espaço para o cuidado individualizado; especialmente focado na higiene e nas necessidades básicas da criança (alimentação, saúde, sono etc.), geralmente em busca de substituir a atenção materna. Por outro lado, na história do trabalho com bebês e crianças até 3 anos, percebemos uma tendência no sentido de aproximar a educação da instrução, centrada na preparação para a pré-escola, por meio de trabalhos mimeografados ou atividades de prontidão motora (segurar o pincel adequadamente, movimentarem-se da "forma correta", etc.).

O final do século XX inaugura reordenações de princípios. A Constituição de 1988 e a LDB de 1996 garantem o direito das crianças à educação infantil. Em 1998, o Conselho Nacional de Educação (CNE) formula e o Ministério da Educação (MEC) homologa as Diretrizes Curriculares Nacionais, estabelecendo a preocupação com a qualidade do trabalho neste segmento.

Depois se destaca também a publicação do Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (vols. 1, 2 e 3), situando esta etapa da educação básica como lugar de construção da identidade e da autonomia, baseadas em relacionamentos seguros e aconchegantes. Além disso, a educação infantil deve ser focada no desenvolvimento da ética e da estética.

Mais recentemente, o MEC elaborou, em parceria com os sistemas, os seguintes documentos: Política Nacional de Educação Infantil: pelo direito das crianças de 0 a 6 anos à educação; Parâmetros Básicos de Infraestrutura para Instituições de Educação Infantil e Parâmetros Nacionais de Qualidade para a Educação Infantil. Todos estes documentos estão comprometidos com a garantia de espaços, de rotinas e de relacionamentos seguros e afetuosos com os bebês e com as crianças pequenas.

Portanto, a partir destas novas perspectivas, o trabalho nas instituições de educação infantil, ao invés de substituir os cuidados maternos ou preparar as crianças para a escola, passa a focalizar a própria criança em seu desenvolvimento presente, nas relações dela com outras crianças e com sua realidade cultural.

No contexto atual, surge a questão: quais são os caminhos concretos na construção destas instituições, especialmente as que atendem bebês e crianças pequenas, como espaços que garantam o direito à brincadeira, ao aconchego, à expressão, dentre outros princípios definidos nos critérios nacionais para um atendimento de qualidade?

Autores do campo da psicologia histórico-cultural, tais como Wallon e Vygotsky contribuem com seus estudos na busca de alternativas para este atendimento. De acordo com os autores, a criança constrói sua singularidade, o seu "eu", no contato com adultos, com outras crianças, com objetos, palavras e significados que circulam ao seu redor. Ela internaliza as regras sociais e recria essas regras em suas ações.

Por exemplo, se chega perto de um parceiro e arranca um brinquedo da mão dele, está em busca de satisfazer suas necessidades próprias. Quando o adulto aproxima-se e diz "não pode" ou "vamos pedir emprestado", ingressa a criança em um mundo de regras e de consideração do coletivo. Pouco tempo depois, poderemos vê-la puxar de novo o brinquedo da mão do parceiro e olhar para o adulto, em busca da confirmação da regra, ou ensaiar a expressão "me empresta", em diferentes situações.

Em um ambiente onde partilhar, trocar e conversar são práticas cotidianas nas quais as crianças se envolvem, provavelmente poderemos notá-las ofertando objetos entre si e experimentando contatos visuais e corporais. Isso coloca o adulto-educador no lugar de mediador do contato da criança com o coletivo e os significados culturalmente dominantes. O desafio é: como ocupar esse lugar, deixando também emergirem os significados (re) criados pelas crianças, os sentidos que ela constrói sobre o mundo?

  Próxima
Como referenciar: "Diálogos e interações com as crianças de 0 a 3 anos: desafios para as instituições de educação infantil" em Só Pedagogia. Virtuous Tecnologia da Informação, 2008-2019. Consultado em 20/02/2019 às 10:33. Disponível na Internet em http://www.pedagogia.com.br/artigos/dialogos_e_interacoes/