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Diálogos e interações com as crianças de 0 a 3 anos: desafios para as instituições de educação infantil (página 2)


Bondioli e Mantovani (1998) são autoras italianas que nos ajudam a refletir sobre as peculiaridades dos relacionamentos com bebês e crianças pequenas. Colocam luz sobre o envolvimento da criança pequena em rituais comunicativos, tais como oferta de objetos, imitação, vocalização frente a frente, sincronismo de gestos, circunscrevendo a creche como espaço relacional.

Segundo elas, no lugar de apenas prestar assistência e observar passivamente as descobertas infantis, o educador é convocado a estabelecer mediações na relação da criança com o mundo, possibilitando vínculo positivo dela com o processo de exploração do que a cerca. Dialogando com as crianças, respondendo aos seus sinais, evocando suas respostas, tocando-as e sendo tocado, o adulto facilita a apropriação por parte das crianças do funcionamento social.

A imitação é um movimento relacional típico e intenso na relação entre os bebês e deles com os adultos. Muitas vezes, se um bebê chora, o outro chora também. Se um se olha no espelho e bate as mãos neste objeto, outro bebê que está por perto, contagia-se com essa ação, repetindo-a. Imitar é uma ação só possível na relação com o outro; é um ?dar-se conta? da presença do outro.

Para Vygotsky (1989), as crianças podem imitar uma variedade de ações que vão muito além dos limites de suas próprias capacidades. Ou seja, a imitação cria possibilidades novas para a criança, abrindo-a para ações que nascem no outro, mas que se tornam dela a partir daquele instante. Isso acontece quando a imitação é iniciada pela criança (e não como imposição do adulto). Em algumas cenas do cotidiano das creches, é possível perceber os adultos incitando as crianças a "imitarem". Por exemplo, quando mostram uma figura de um cachorro e pedem "vamos fazer igual ao au au". Nestes casos, não se trata da imitação propriamente, mas do atendimento a uma solicitação do adulto.

O gesto de apontar é outro comportamento comum como manifestação da comunicação pré-verbal da criança. Vygotsky estuda este gesto como indicador da origem do processo de constituição sociocultural das crianças.  Sobre isso, ele diz que inicialmente esse gesto não é nada mais que uma tentativa sem sucesso de pegar alguma coisa; mas, quando o adulto vem e ajuda a criança, notando que o seu movimento indica algo, a situação muda; o apontar torna-se um gesto para os outros. Então, pegar um objeto transforma- se em apontar, pela leitura que o adulto faz da ação da criança.

É na atenção aos pequenos gestos cotidianos dos bebês e das crianças pequenas que se realiza o papel do educador, que pode favorecer as imitações que a criança inicia, nomear movimentos, buscar seus significados, com cuidado para não invadir e atropelar os sentidos que elas próprias dão às suas experiências. Desenvolver responsabilidade no contato com os bebês significa dar respostas congruentes e responsáveis aos seus gestos, olhares, sorrisos e movimentos, compartilhando significados, ingressando-os no coletivo. A conquista da segurança nas relações é o alicerce da constituição de autonomia e de identidade por parte do bebê, do menino e da menina. Portanto, é importante que se sintam reconhecidos e incentivados pelo educador, o que ocorre na resposta aos seus sorrisos, gestos e primeiras palavras.

O desafio que se coloca é observar, organizar espaços, tempos e materiais, acompanhar e responder às crianças sem antecipar suas conquistas ou fechar rigidamente sentidos a respeito de suas explorações.


REFERÊNCIAS

BONDIOLI, Anna; MANTOVANI, Susanna (orgs). Manual de Educação Infantil - de 0 a 3 anos. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.
DIDONET, Vital. Creche: a que veio? Para onde vai? Brasília: Em Aberto, v. 18, n. 73, pp. 11-27, julho, 2001.
VYGOTSKY, L. S. A Formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
WALLON, Henri. As origens do pensamento na criança. São Paulo: Manole, 1988.

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Como referenciar: "Diálogos e interações com as crianças de 0 a 3 anos: desafios para as instituições de educação infantil" em Só Pedagogia. Virtuous Tecnologia da Informação, 2008-2020. Consultado em 20/10/2020 às 02:18. Disponível na Internet em http://www.pedagogia.com.br/artigos/dialogos_e_interacoes/?pagina=1

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