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Conceitos Matemáticos Inseridos na Educação da Primeira Infância: Diagonais que Perpassam o Desenvolvimento dos Pequenos Estudantes (página 2)

O Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (v. 3, 2002) realiza alusões a esses pontos propondo o ensino da matemática na educação da primeira infância de maneira interdisciplinar, contudo com abordagem piagetiana. É neste ponto que, nesse momento, não compartilhamos com as orientações do documento, pois a nosso ver as possibilidades de discussões são tamanhas que um olhar histórico-crítico, e não puramente piagetiano, ajudaria imensuravelmente os educadores a compreenderem as diversas possibilidades que o ensino da matemática pode proporcionar às crianças. 

Noutra situação, outro estudante demonstrou compreensão lógica na organização dos fatos a partir da observação das cenas. A atividade solicitava do aprendiz, a organização das cenas, colocando em ordem da primeira situação até a última ocorrida. Cada cena evidenciava um ocorrido, a criança deveria entender os fatos que acontecem antes e depois de cada ato, para assim poder classificar as cenas da primeira à quinta (MOURA, 2006).

Neste caso verificamos que a noção de ordenação e seriação estava impregnada na atividade. Também constatamos as noções de antes e depois, o registro de numerais ordinais e a personificação do rato como o sujeito que rouba, que comete o delito de apropriar-se do que não lhe pertence, realizando tal ato num momento de descuido do gato. Esta construção de sujeito (rato) peçonhento, roedor que destrói tudo que ver à sua frente é dada às pessoas que cometem a mesma obra, não porque se pareçam com o roedor (fisicamente), mas porque suas atitudes se assemelham à do bichano.  Rego (1995) nos esclarece tal feito dizendo que a ação social é demonstrada historicamente como uma atitude construída pelas pessoas e não posta naturalmente, como uma fruta madura que cai da árvore. A compreensão histórica e cultural nos remete a esses rótulos que em muitos casos desqualificam os animais, que naturalmente realizam esses atos por "sobrevivência" e não por extinto racional, ao contrário de nós.

Outro fato que não podemos deixar de mencionar é a noção de classificação dos dois animais: são mamíferos? roedores? vertebrados ou invertebrados...? E a brincadeira de papeis sociais: quem é o rato ou o gato? Esta última é de fundamental importância para as crianças e deveria ser para os estudos dos educadores, visto que os pequenos manifestam pensamentos, atitudes, valores; demonstram suas vivências com seus pares e com os demais. As demonstrações de autoritarismo, envergonhamento, timidez, aceitação de punições, de submissão aos outros são visualizadas nas brincadeiras de papeis sociais, que também são chamadas de faz-de-conta (OLIVEIRA, 1997).  

Podemos verificar que em cada uma das situações visualizadas acima, os conceitos matemáticos e os temas sociais foram explorados nas atividades propostas às crianças. Contudo se o educador não tiver uma formação de qualidade e não souber discutir estas temáticas com seus estudantes a disciplina matemática sempre levará o estigma de difícil, chata, complicada. Infelizmente é esta a situação constatada em grande parte das escolas brasileiras. Professores mal formados que desenvolvem suas práticas de ensino de acordo com as metodologias que aprenderam de seus professores formadores, fazendo com que as crianças vejam a matemática como uma "matéria" muito difícil e descontextualizada do mundo infantil (MOREIRA; DAVID, 2005).

E para mudar este quadro, faz-se necessário já na educação da infância uma tradução da linguagem dos adultos para a linguagem dos pequenos, nada melhor do que a brincadeira, o jogo e a literatura para a realização deste ato. Sendo o jogo e a brincadeira atividades principais das crianças, elas agem sobre eles elaborando estratégias de ação para obter o que almejam e ainda conseguem se desinibir, expressar atitudes diversas e apreender relações sociais que lhe perseguirão por toda a vida, como por exemplo, perder e ganhar (SILVA 2008). No caso da literatura, além do estímulo à leitura, o educador estará exercitando na criança a percepção visual, a orientação espacial e a ordenação temporal e tantas outras habilidades leitora; não só numa perspectiva de trabalho com o texto verbal, mas especialmente com o texto não-verbal (BREVES, 2003).

Valendo-nos de D'Ambrosio (1996, p. 7) e a partir do revelado nas ocorrências demonstradas acima podemos nos filiar à afirmativa deste grande estudioso da educação, em especial da educação matemática, quando defende que ver a disciplina matemática "[...] como uma estratégia desenvolvida pela espécie humana ao longo de sua história para explicar, para entender, para manejar e conviver com a realidade sensível, perceptível, e com o seu imaginário, naturalmente dentro de um contexto natural e cultural [...]". Por isso incorporamos às três estratégias já mencionadas ao ensino da matemática na educação da primeira infância outra que deve perpassar nesse triângulo metodológico: a investigação matemática. O estudante, pela mediação do professor, irá conhecer o que não se sabe. Segundo Ponte, Brocardo e Oliveira (2005, p. 23) "[...] O aluno aprende quando mobiliza os seus recursos cognitivos e afetivos com vista a atingir um objetivo [...]", assim temos a importância da investigação matemática para que o estudante possa investir todos os seus recursos para desvelar o que antes era desconhecido.

Tendo em vista que a "matemática e a educação são estratégias contextualizadas e totalmente interdependentes" (D'AMBROSIO, 1996, p. 8), podemos afirmar que sem um enredo estimulante e significativo o filme se torna obsoleto, a história fica sem sentido, o discurso se esvazia e ninguém se preocupa em aprender estes acontecimentos. Entretanto, como visualizar os conhecimentos matemáticos como estratégias contextualizadas? Antes de tudo o educador necessita conhecê-los e apropriar-se deles, uma vez que, "[...] é impossível significar algo, quando se  desconhece a sua origem e as transformações que sofreu no decorrer dos anos" (HENGEMÜHLE, 2008, p. 40). Em face disso, veremos quais são os conceitos matemáticos trabalhados na primeira infância.

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Como referenciar: "Conceitos Matemáticos Inseridos na Educação da Primeira Infância: Diagonais que Perpassam o Desenvolvimento dos Pequenos Estudantes " em Só Pedagogia. Virtuous Tecnologia da Informação, 2008-2024. Consultado em 16/06/2024 às 03:52. Disponível na Internet em http://www.pedagogia.com.br/artigos/matematicaprimeira/index.php?pagina=1