A Festa de São Benedito
Autor: Raimundo Neves dos Santos
Data: 28/06/2010
As festas religiosas fazem parte da cultura popular brasileira que ao serem preservadas se constituem, quase sempre, em tradição cultural que faz parte da memória dos grupos sociais que a realizam. Essas festas nos levam a refletir sobre a realidade social e sobre a história de uma sociedade. O processo de continuidade da história desses grupos sociais é o centro da discussão dos autores e estudiosos que pesquisam o assunto.
O interesse desses grupos sociais pela sua história é que faz manter acesa, o anseio de dar continuidade às manifestações que afloram seus traços e costumes. Essas festas religiosas se constituem em expressões do imaginário de cada sociedade e manifestam sua particularidade ligada à representação de ação simbólica, seja na forma individual ou coletiva. As práticas através das quais os agentes manifestam seus valores inconscientes, são representados por uma função simbólica desses rituais. O catolicismo popular que se enraizou no Brasil está marcado por sua origem européia, mas encontrou nas tradições culturais dos grupos africanos que aqui existiam, elementos que deram novas configurações. O encontro da cultura africana com a cultura indígena produziu um modo partilhado de a cultura popular pensar a relação entre o sagrado e o profano. Quando nos referimos ao catolicismo estamos na verdade nos remetendo a um intrincado sistema de práticas, significados, rituais e personagens que transitam por este universo religioso e que ultrapassam as fronteiras institucionais da igreja e ortodoxia católica.
A atuação da igreja católica através das missões foi fundamental no que se refere ao fornecimento dos elementos de controle ideológicos, legitimando o processo de civilização através das ações catequéticas, disciplinarização, controle social e adequação do nativo ao mercado de trabalho. As missões tinham o objetivo de formar os índios para a vida do trabalho.
A festa de São Benedito em Almeirim-Pá. A festa de São Benedito segue o modelo de outras festas religiosas existentes no Brasil, como as festas de Nossa Senhora de Nazaré, de São Pedro, de Santo Antônio, do Menino Deus, de São Sebastião, de São Raimundo, de São Francisco, entre outras. Tem como natureza do seu ritual o espírito invocativo que propicia a esperança no milagre que, quando alcançado, se institui num ritual de agradecimentos, através dos pagamentos das promessas dos fiéis. Esses pagamentos ocorrem na forma de objetos como: mantos, resplendores, coroas, jóias, enfeites, materiais destinados à igreja, imagem do santo, oferendas etc. A festa de São Benedito de Almeirim evoluiu com o tempo. Ao acompanharmos a festa daquele santo, logo poderemos observar que algumas manifestações mais antigas não existem mais como é o caso da corrida no saco, ovo na colher, pau de sebo, etc. As mudanças ocorridas atingiram, inclusive, a parte religiosa. Essas considerações, porém, não se pode dizer do Gambá, que nos dias atuais continua sendo tocado, cantado e dançado como há cem anos atrás. Seus instrumentos continuam sendo fabricados pelos próprios músicos da família. Podemos com isso afirmar que o Gambá é: "uma manifestação do passado no presente, como no passado".
Nas caminhadas terrestres e fluviais sempre se percebe nos fiéis, atitudes respaldadas no respeito, na devoção e na fé. Essas atitudes são sempre acompanhadas de descontração e alegria, que fazem com que a festa de São Benedito, se configure num momento extraordinário na vida de seus habitantes, em especial os católicos. O fato de ser negro, (por ser filho de escravos), São Benedito adquiriu simpatia para que seja o mais procurado pelos negros, que nele depositam confiança para a resolução de seus problemas e o fato de ser considerado milagroso é que o levou a se tornar o padroeiro do povo almeirinense. Num certo sentido, pode-se afirmar que São Benedito está na mesma ordem da oração, da promessa e do milagre. Para quem acompanha a festa há muito tempo é possível que alguns elementos mais antigos, ligados à parte profana que faziam parte dos rituais, não acontece mais, foram substituídos por outros elementos o que expressa as mudanças sociais. O "pau de sebo", a "barquinha", a "corrida no saco", a "corrida do ovo na colher" entre outros que não podemos mais presenciar na festa. O famoso "donativo" ainda acontece, mas não como era antes, pois sofreu grande desvalorização. O leilão que era comandado por Rosemiro Rodrigues se constituía em um momento importante se acabou. A festa de São Benedito é uma parte sagrada que o povo cultua, por depositar fé e esperança nos milagres que esse santo é capaz de realizar na vida das pessoas que nele acreditam. São Benedito é, portanto, a esperança de dias melhores para os devotos que a ele recorrem para intermediar uma relação com Deus que, a partir de então, acreditam no milagre divino e esperam superar as dificuldades do dia a dia.
A Alvorada: Nos seguintes paragráfos mostraremos as várias etapas que constituem a festa de São Benedito e que ocorrem ao longo de oito dias. A Alvorada dá início à festa de São Benedito. É ela que recebe os romeiros e lhes dá boas vindas. Seu início se dá ás quatro horas e seu término, aproximadamente, ás seis horas da manhã, com uma duração de mais ou menos duas horas.
É a partir da alvorada que se encontram abertas às comemorações do padroeiro, onde o conjunto de crenças e as práticas socialmente reconhecidas como católicas são vividas, vivenciadas e partilhadas. Há alguns anos atrás, a alvorada se constituía de uma caminhada realizada em algumas ruas da cidade, onde os fiéis saíam cantando e convidando a sociedade para participar dos eventos e do festejo do santo. Via-se impregnado nas atitudes das pessoas o respeito e a crença no catolicismo, representado por este santo que é considerado um dos mais milagreiros existentes na religião. Ao longo dos anos mudanças ocorreram na estrutura do ritual, a modernidade acompanha a nova geração e os traços, costumes, laços familiares e religiosos, transformaram-se em "ausências". Hoje, tudo está resumido em uma carreata, onde os devotos cantam músicas regionais acompanhadas pelos tambores das escolas, convidando as pessoas para os festejos regados sempre de muitos fogos de artifícios e alguns tragos de bebidas alcoólicas. A carreata dura aproximadamente duas horas e percorre várias ruas e vários bairros da cidade. Porém não se nota mais aquele olhar esperançoso dos que faziam a alvorada, não se vê mais a fé na transformação social, nem a esperança de uma vida melhor, já que o padroeiro é o "ser" responsável neste intercâmbio entre Deus e o homem. Contudo, continua acontecendo a velha alvorada que dá início às festividades de São Benedito, em Almeirim do Pará. O Levantamento do Mastro Após a realização da Alvorada prepara-se o "levantamento do mastro da festa", que acontece pela manhã aproximadamente entre oito e nove horas.
Neste levantamento de mastro tem-se a presença dos padres da cidade (franciscanos que residem em uma casa destinada a eles), das irmãs franciscanas que vivem em um convento, dirigem a Escola Nossa Senhora da conceição e regem aulas à seus alunos), a família Castro (membros da Irmandade de São Benedito), autoridades, religiosos, devotos, estudantes etc. Nesse encontro o pároco abençoa o mastro e os fiéis, pedindo a bênção e a proteção a São Benedito, para que a festa ocorra em paz. No levantamento do mastro os fiéis se comprometem a contribuir para a realização da festa da melhor maneira possível, se eximindo dos pecados, desfazendo-se das brigas e unindo a comunidade em torno de um só objetivo que é a união dos devotos do santo e membros da igreja católica. A água benta é um dos artifícios da crença popular, onde o padre benze os fiéis jogando essa água em cima do povo.
Há, inclusive, um grande alvoroço com expectativa de receber ou não algumas gotas da água benta. O Arraial Durante os dias de festa acontece pela parte da noite a celebração de missas na igreja matriz da cidade. Essas celebrações são missas que se diferenciam das outras pela quantidade de fiéis que delas participam e pela discussão de um tema específico para a oportunidade. Esses temas estão sempre relacionados aos temas da CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil). Dando seqüência à missa, acontece a programação do arraial do santo realizado no "salão paroquial" (prédio pertencente à igreja católica, onde são realizados encontros de catequistas e algumas festas comemorativas da comunidade almeirinense), que ornamentado com palmeiras regionais e enfeitado com bandeiras coloridas, abrigam a população que freqüenta a festa do padroeiro. Iguarias da região e bebidas são servidas aos romeiros e moradores do município, a preços acima do mercado, visando sempre o "lucro" para engordar o caixa do santo.
As noites de arraial, além de proporcionarem os festejos do santo, são recheadas de ladainhas, nas residências dos moradores católicos que rezam as novenas para, posteriormente, se esbaldarem na festa dançante, promovendo encontros, namoros, brincadeiras etc. Nesse ínterim acontecem os "leilões" de animais, de frutas, de farinhas, de beijus, de artesanatos, de presentes e todas as ofertas que membros das comunidades oferecem ao santo, para contribuir com a festa ou para pagamento de promessas feitas quando buscavam solução para algum problema, seja em casos amorosos, em casos de doenças, e até ajuda nos negócios que envolvem dinheiro. Ressalto que no caso dos leilões, ficou marcado na história da festividade o trabalho de Rosemiro Rodrigues que "comandava" esses leilões, deixando caracterizada uma marca própria, que ficou na memória do povo para sempre. As atrações que encontramos nas festas dos dias atuais são as barracas de camelôs, vindos de outros estados, na "perspectiva" de prosperar financeiramente. Nota-se também a presença de jogos variados, todos montados para "ludibriar" os que se arriscam no jogo. Ainda podemos presenciar a antiga "barquinha", que driblou as novas tecnologias e é uma das grandes atrações para crianças e adolescentes que freqüentam o arraial. A Procissão A procissão configura-se numa caminhada pelas ruas da cidade onde a população de fiéis carrega seu padroeiro em cima de um "andor" (berlinda) construído de madeira, pintado e ornamentado de ramos e flores.
O andor é considerado parte fundamental desse traslado, sendo assediado por promesseiros, fiéis e curiosos, que da caminhada participam e que querem carregá-lo. A direção da festa escolhe quatro pessoas para carregar o andor com o São Benedito, mas por motivo da distância e do tempo que dura, a procissão, esses carregadores revezam com outros que ficam de sobreaviso. Na parte da frente, atrás e próximo ao andor, formam-se grandes pelotões, com milhares de pessoas que tradicionalmente participam na procissão do santo. Vários são os objetivos dos que caminham, alguns para pagar promessas feitas ao santo tempos atrás, outros caminham para pedir paz no mundo, alguns pedem solução para problemas familiares.
Assim cada um com seu objetivo, porém todos voltados para receber uma provável bênção de Deus a pedido de São Benedito. Durante a caminhada os moradores que assistiam de suas residências por onde passa a procissão, servem água aos fiéis cansados e com sede. Determinadas pessoas fazem essas caridades para mostrar apreço ao santo, outros pagando suas promessas a São Benedito. Ao chegar à Igreja Matriz a procissão é encerrada com uma missa campal na praça do centenário que fica em frente à igreja matriz. Essa missa é celebrada pelo pároco da cidade e assistida por grande número de pessoas que, apesar do cansaço, permanecem até o final do evento. Nessa missa muitos fiéis que acabaram de pagar promessas por terem alcançado alguma graça do santo, renovam esses pedidos como forma de manter acesa a chama da fé em Nosso Senhor Jesus Cristo, em Deus pai todo poderoso e em São Benedito. Algumas das formas que os fiéis utilizam para pagar as promessas feitas são: caminhar descalços na procissão carregando tijolos na cabeça, cortar o cabelo que cresce desde a promessa, transportar miniaturas de barcos na cabeça, carregar cruz nos ombros, fazer o percurso levando consigo a imagem do São Benedito, carregar o filho durante toda a caminhada da procissão etc. a procissão é, portanto, parte fundamental da festa, aguardada por toda coletividade. Nela surgem diferentes formas de confidências com o divino.
A Meia lua A Meia Lua ou procissão Fluvial consiste num passeio de barcos, realizado em frente a cidade, no Rio Amazonas, onde o santo é levado em um barco, "o barco do santo" que é seguido por dezenas de outros barcos de menor porte. Para muitos fiéis este é o momento mais importante da festa do santo. É nessa procissão fluvial que os navegantes e moradores ribeirinhos, que possuem pequenas embarcações, mostram suas devoções de carinhos e respeito pelo santo. Para outros fiéis que não participam da procissão fluvial e apenas observam aqueles que não medem esforços para enfeitarem seus barcos para o momento da "Meia lua".
Lotados de fiéis, esses barcos largam em procissão no Rio Amazonas e servem de apoio ao "barco do santo" que é cedido pelo proprietário para levar a imagem do santo. O "Barco do santo" é um barco especial, seguro e ornamentado. A fé é tamanha que os fiéis lotam essas embarcações desobedecendo ao limite imposto pela capitania dos Portos, colocando, às vezes, em risco a vida de muitos moradores. Na frente do barco do santo vai a Comitiva que conduz o santo, denominados de "festeiros" (membros da Irmandade de São Benedito), que ao ritmo do Gambá per formado pela Família Castro canta as ladainhas em louvor ao santo. A procissão fluvial é a despedida dos festejos oferecidos a São Benedito e sinal de que a festa está próxima de seu término. É chegada a hora, portanto, da alegria dar vez à tristeza e vice e versa.





























