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Era uma vez a questão racial: os livros de Literatura no processo de construção de identidades

Autor: Michelle dos Santos Vianna
Data: 15/02/2019

Resumo

Este artigo faz uma breve reflexão sobre a importância da Literatura Infanto-juvenil para a construção da identidade étnico-racial na Educação Infantil. O objetivo é fazer uma discussão acerca dos caminhos possíveis para uma construção identitária, que valorize e reconheça a beleza da criança negra. Para tal reconhecimento contamos com Lei 10.639/03 que torna obrigatório o ensino da História e da Cultura Africana e Afro-brasileira nas escolas públicas e privadas do Brasil afirmando os direitos da população negra nos diferentes âmbitos.

Para nos ajudar a compreender este processo e as práticas dos docentes, utilizamos os conceitos de Racismo, Identidade, Empoderamento, Literatura entre outros. São muitos os desafios encontrados em nosso cotidiano, a partir dessas explanações pretendemos ampliar as discussões sobre práticas educativas e pedagógicas reflexões sobre o processo de inclusão e os caminhos necessários para promover a igualdade racial na educação e na sociedade como um todo.

PALAVRAS-CHAVE: Literatura Infanto-juvenil, Identidade Étnico-Racial, Criança Negra, Lei 10.639/03, Diversidade.

Introdução

O presente trabalho é um recorte da minha monografia de conclusão do curso de Pedagogia, da qual optei por fazer um trabalho bibliográfico, que me possibilitou maior conhecimento em torno do tema relações Étnico-Racial na Educação Infantil, com o propósito de compreender como se dá essas relações dentro da escola evidenciando o segmento da Educação Infantil, por acreditar que é nessa etapa que os conflitos sociais surgem e influenciam diretamente na identidade da criança negra e foi através dos livros e autores que puder fortalecer a minha caminhada teórica.

A literatura surge então com a minha experiência enquanto bolsista do PROALE , que viu na literatura um caminho possível para a promoção e construção identitária e a valorização dos fenótipos negros. O PROALE só reforçou a minha ideia de falar sobre as relações étnico-raciais permitindo um maior contato com contos, mitos, lendas e biografias que reforçaram a minha identidade, enquanto professora negra e, ampliação de literaturas e conhecimento sobre autores que nem mesmo sabia que existiam. Ampliando esses horizontes em busca da diversidade, percebi melhora no trabalho com as crianças, pois tínhamos opções de leitura e uma abordagem maior sobre as questões raciais.

A construção identitária da criança deve contar com estímulos, suportes e conteúdos capazes de valorizar e reconhecer a beleza de cada criança, por isso a importância do livro na educação infantil, e o papel central do professor nesse segmento que seleciona esses livros e produz atividades que pode ou não ajudar nessa construção identitária.

Vejo que o trabalho do professor, nesse sentindo, é apresentar uma literatura que visa uma construção de identidade positiva, já que a educação infantil ainda precisa do lúdico e o livro traz essa perspectiva mais descontraída para que as crianças entendam de forma mais "leve" o que é: O preconceito? O que é o racismo? O que é ser negro? E nesse sentindo o que vemos são professores que buscam no livro um caminho para construir projetos e possibilitar construção de identidades diversas. Assim, indago se o livro poderia ser um suporte para construção da autoestima e valorização da beleza negra?

Essa pergunta surgiu a partir do meu trabalho como bolsista no PROALE, ao presenciar tantos professores a procura de livro e que abordem a temática racial e outras questões como forma de introduzir o trabalho. Entretanto, o que me chamou a atenção é como muitos desses livros têm sido usados.

Desde que comecei a trabalhar no PROALE percebi que não existem livros específicos para determinada faixa etária ou temática, pois um livro transborda essas definições, a forma como é tratada a leitura e como ela é recebida pelos alunos é que definem as inúmeras facetas que um livro pode apresentar, eles nos mostram que para além das páginas existe um mundo de imaginações e de adaptações possíveis para qualquer público.

Realizo uma análise sobre alguns livros do PROALE que os professores mais trabalham com esse segmento. Procurei apresentar nesses livros os pontos positivos e negativos, com o objetivo de valorizar e reconhecer nesses livros caminhos possíveis de construir a diversidade e fortalecer o processo identitário da criança.

O contato com os livros deve começar desde cedo, pois os livros propiciarão ao universo infantil um mundo de fantasia, imaginação e uma compreensão maior de si e do mundo à sua volta. Para além das princesas e príncipes do padrão estético que nos é apresentado, o livro quando bem escolhido e quando integra o segmento étnico, leva a criança a reinventar parte da história, em que ela se vê como personagem sem perder o encantamento da tradição dos contos de fadas.

Perceber o livro como um dos vários instrumentos de suporte metodológico necessários nessa construção positiva da identidade negra faz entender que existe um caminho possível a ser iniciado na Educação infantil, ou seja, uma construção lúdica a respeito de quem somos.
É o leitor quem cria, constrói o sentido a partir de seus conhecimentos, em sua expectativa e em sua intenção de leitura. No caso do aluno, porém, a intensão é do professor. Quem deseja que a leitura seja feita porque é importante, necessária para a explicitação de um assunto, para a ampliação de um conhecimento, ou por qualquer outro motivo, é o professor. Só ele pode transformar o que precisa ser lido em algo significativo e prazeroso. (BRAGA e SILVESTRE, 2009, p. 22).
Daí a importância de o professor selecionar os livros que estarão nas salas de aula, nos cantinhos de leitura, uma vez que, o acesso e seleção dos mesmos, demonstra preocupação com a qualidade e com o conteúdo que está sendo passado para essas crianças, visto que majoritariamente as crianças das escolas públicas são negras e por isso, devem se sentir representadas no espaço escolar através dos brinquedos, livros, dentre outros objetos, já que passaram a maior parte do tempo dentro da escola.

Na busca de uma construção identitária da criança negra, analisarei 5 livros que nos ajudam a entender como os livros infanto-juvenis podem ser grandes suportes para a valorização e negação da identidade. Tomaremos o livro e a literatura infantil como um dos pontos de partida plausíveis de se trabalhar na Educação Infantil, segmento em que se busca dentre outras coisas o conhecimento e o respeito de si e do outro, tornando o livro um suporte metodológico que é muito manuseado pelas crianças e usado em atividades pelos professores.

Sem o objetivo de esgotar a literatura afrodescendente infantil voltada para as questões raciais, buscaremos discutir, apresentar e analisar o conteúdo de cada livro, visando olhar pontos positivos e negativos, que nos ajudem a discorrer a importância dessas literaturas na construção identitária da criança negra, mas também levar um conteúdo que possibilite que seu imaginário seja amplo,  incentivando a formação do pensamento, estimulando-a a criticidade.

Deste modo os livros que veremos são fios condutores para pensarmos antes de tudo nos processos identitários, de reconhecimento e valorização da imagem negra dentro das escolas, por meio de textos, imagens e outros elementos trazidos no livro, pois nada em um livro é por acaso, todos os elementos são intencionais.
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Como referenciar: "Era uma vez a questão racial: os livros de Literatura no processo de construção de identidades" em Só Pedagogia. Virtuous Tecnologia da Informação, 2008-2019. Consultado em 13/12/2019 às 00:53. Disponível na Internet em http://www.pedagogia.com.br/artigos/etnicoracial/