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A Infância Sob o Olhar de Professoras da Educação Infantil: A Revelação de Uma Formação Insegura (página 5)

Bassi: [...] A mãe da "C" uma vez chegou na minha sala dizendo assim: as meninas num gostam da "C", porque a "C" é preta. Eu falei: não, eu não conheço essa diferença aqui nessa sala. Aqui eu converso muito com eles que, você tem que amar seu coleguinha assim como ele é (se ele é preto, branco, loiro). Então num tem que ter diferença, todo mundo aqui é igual. Aí ela (a mãe dela) até chorou. Eu disse: não, mas você num pode ficar assim. Porque eu ainda num presenciei isso na sala de aula. Só se for no recreio. Tem um que fala assim com o "R": oh tia! Olha o negrinho. Eu falei: como é o nome?  O negrinho. Eu disse: ele tem nome. Como é que a tia chama ele? "R"! Pois o nome dele é "R". Ele é igual a você, só que a pele dele é diferente da sua, mas você é igual a ele. Então há discriminação dentro da sala de aula. As meninas também. A "V" tem uma diferenciação. Ela gosta de umas meninas e num gosta das outras. Ela diz: eu só vou gostar da "C" e da fulana; eu num gosto da fulana e da cicrana. Eu disse: você tem que gostar de todas. Aí a outra diz: olha tia a "C" num gosta de mim. O que é isso "C"?! Ah, porque essa menina é chata de mais. Pois você é chata também e tem que gostar dela, ou você gosta dela ou você num fica na minha sala. Ela disse: a senhora é muito enjoada. Todo mundo tem que gostar do seu colega, ou lá na sua casa é assim? Não. Pois é, pois vai lá e dê um abraço na sua colega. Pega na mão dela. Nunca mais faça isso na sala de aula.
Piscopia: Agora em relação a minha sala... eu fiz uma coisa errada eu reconheço. No começo até as mães fizeram isso, aí eu deixei. Elas colocaram os meninos só numa mesa e as meninas só noutra. Elas num querem os meninos misturados com as meninas e ficou o ano todo assim. E num deu mais pra mudar, ficou o ano todo assim. As próprias crianças num queriam mudar. Eles diziam que menina aqui e menino lá. Mas eu deixei porque no começo do ano eles choram muito né; a mãe diz pra deixar nessa mesa com esse coleguinha e foi botando só menino na mesa. Aí vem outra e ver que na mesa só tem menino aí num coloca a filha lá. Procura a mesa que tem só meninas. Porque elas têm medo dos meninos bater nas meninas, porque diz que os meninos batem né. Na hora de brincar eles ficam brigando pelo melhor brinquedo. Os meninos principalmente. Eles brigam e depois ficam juntos de novo; num tem rancor não. Mas tem alguns que são muito duro. Até choram pra pedir desculpas, mas são poucos. Só uns dois pela manhã.
[...]


Percebemos que Bassi  usa de sua autoridade para impor suas normas em sala de aula, estimulando a perpetuação da discriminação racial. Em momento algum esse fato serviu como instrumento reflexivo para Bassi (re)pensar sua prática pedagógica, suas atitudes em sala de aula, tampouco ela fez uso do ocorrido para propor situações desafiadoras às crianças no sentido de ampliar a discussão, levantar os porquês desse ato. Nada melhor do que utilizar como instrumento, mas não como fim, a literatura infantil para abrir as discussões com os pequenos (PEREIRA, 2007).

No caso de Piscopia, houve o reconhecimento do erro, contudo ela se vê numa situação quase que engessada. Ela mesma ajudou a enquadrar esses modos nos estudantes, fazendo com que as atitudes preconceituosas que alagam a casa deles se estendessem até a escola, tendo o aval da docente. Essa permissão veio como desculpas para poder sanar um momento que é mais que normal na educação da primeira infância: o choro como marca dos primeiros dias das crianças de quatro anos de idade na escola.

Essas práticas estão impregnadas, em especial, na rotina estabelecida pela escola e pelos docentes, como bem mostra Kuhlmann Jr. (1998) ao realizar uma reflexão acerca dos aspectos históricos da estruturação de rotinas na programação pedagógica das instituições de educação da primeira infância, visando alertar a todos que os cuidados com nossas falas e atitudes devem permear nossas concretizações das rotinas.

Mas como identificar as melhores ações pedagógicas? De que maneira agir frente a essas inquietudes que permeiam a educação dos pequenos? Quais os caminhos a seguir? Não há respostas prontas para estas dúvidas. Entretanto podemos afirmar que caso o educador não possua sua ação pedagógica pautada à luz de um referencial teórico, ignore o percurso histórico que a categoria infância obteve até os dias de hoje e desconheça os sujeitos sociais com quem trabalha o ensinante jamais encontrará respostas. Só lhe será útil as receitas. Por isso, faz-se necessário uma formação alicerçada nos fundamentos teóricos e metodológicos para nortear a práxis pedagógica e ainda sair do senso comum e chegar à consciência filosófica (SAVIANI, 2007).

Infelizmente, as dificuldades na constituição de um discurso, ficaram estampadas na fala dos sujeitos da pesquisa. Desde o início da nossa discussão vínhamos imaginando que estas profissionais lembrassem estudos, obras de algum pesquisador que se dedicou à investigação da categoria infância, entretanto não foi esta a realidade que encontramos. No que toca a psicologia, as informantes da pesquisa possuem impregnados em suas falas somente Piaget (1896-1980); os demais, dos outros campos do conhecimento, da historiografia da infância, do estudo das políticas públicas acerca da meninice, da pedagogia da puerícia, não são de conhecimentos delas. Tampouco conhecem metodologias de ensino fundamentadas teoricamente. Elas reconhecem as lacunas teóricas que possuem e sabem da necessidade de buscar, de realizar seus estudos pessoais e, pelas falas discorridas, se mostram abertas à aprendizagem, à parceria...

[...]
Piscopia: Eu reconheço. A gente tem que ler livros....
Iara: É a gente mesmo, aqui é quase todos. Eu mesmo sou uma.
[...]
Hipátia: A gente tem que ler muito porque se agente for falar pro pai: olha seu filho tá nessa fase. A gente tem que ter uma base. Porque como é que agente vai saber, onde foi que agente pesquisou?
Bassi: É porque a gente tem que saber falar das fases das crianças. Os pais vão perguntar, porque eles perguntam. Eles podem é num ter cultura, mas ter inteligência pra perguntar eles têm. Tem pai que faz cada pergunta pra mim, que se num fosse a nossa inteligência ele até me passava como analfabeta.
Hipátia: Tem mãe que fala assim: professora, meu filho tava tão bem, agora parece que ele tá voltando, regredindo. E isso é fase da criança mesmo né. As vezes ele perde e recupera e tem autores falando sobre isso, num sei se é Vygotsky ou Rousseau. E agente tem que saber de todas essas teorias pra saber argumentar com os pais.
Bassi: Até na hora de entregar os boletins. Os pais querem saber cada item desse (apontando pro boletim), e tu tem que explicar o porquê daquilo lá que ela tá perguntando.
Hipátia: Igual tá dizendo aqui (mostra o boletim): desenvolvimento intelectual psicomotor: nas artes visuais eu coloco objetivo alcançado no primeiro bimestre, já no segundo eu coloco não alcançado. Aí a mãe olha e diz: por que que no começo tava bom e agora, ao invés de melhorar mais, fez foi regredir, tá piorando? Aí a gente tem que ter argumentos pra falar pra mãe o que tá alí.
Piscopia: Tem também a maturidade. Eu trabalho com meninos de quatro anos aí a maturidade é diferente dos que têm cinco anos. Ele chora mais, tem a proteção da professora. Ele num é independente. No começo do ano é terrível, porque eles tão chegando e às vezes nunca estiveram numa escola antes, por isso têm que ter ajuda. O menino chora muito, é a fase de adaptação né. Pra ir ao banheiro, eles têm vergonha, aí muitos meninos fazem necessidades aí na roupa. Aí no decorrer do ano eles vão se adaptando. Já os de cinco anos num têm isso. Eles já chegam e conhecem o espaço deles. Então há uma diferença.

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Como referenciar: "A Infância Sob o Olhar de Professoras da Educação Infantil: A Revelação de Uma Formação Insegura " em Só Pedagogia. Virtuous Tecnologia da Informação, 2008-2026. Consultado em 14/01/2026 às 06:55. Disponível na Internet em http://www.pedagogia.com.br/artigos/perspectivadeprofessoraseducacaoinfantil/?pagina=4