A Infância Sob o Olhar de Professoras da Educação Infantil: A Revelação de Uma Formação Insegura (página 6)
Podemos perceber que as educadoras elencam três necessidades que exigem delas avanços nos estudos: (1) estudar para esclarecer para os pais o nível de desenvolvimento de seus filhos, (2) estudar para elucidar o boletim dos infantes para os pais e (3) estudar para entender a maturidade dos pequenos. Temos que ter cuidado para não cairmos no imediatismo do conhecimento, pois dessa feita, estaremos reduzindo o conhecimento historicamente produzido a informações pífias, descartáveis, que ora servem, ora não servem. Em vista disto, devemos defender o aprender (DUARTE, 2006) e não o aprender a aprender.
Duarte (2006, p. 29-30) nos esclarece a necessidade de combatermos o lema "aprender a aprender", uma vez que ele tomou corpo no Brasil através da maciça difusão da epistemologia e da psicologia genéticas de Piaget como referencial para a educação, através do movimento construtivista que, no nosso país, "[...] tornou-se um grande modismo a partir da década de 1980, defendendo princípios pedagógicos muito próximos aos do movimento escolanovista [...]" Este lema, nos alerta o estudioso, "[...] consiste em supervalorizar o método de conhecimento em detrimento do conhecimento como produto, articulando-se também à idéia de que uma educação democrática não pode privilegiar uma determinada concepção ideológica, política etc. [...]" (ibidem, p. 30). Ou seja, desconstruir o ideal de transformação, de luta de classes e o combate à ideologia dominante é o foco desta "educação democrática" defendida pelo lema. Colocar o conhecimento historicamente construído como secundário, como algo que não tem maior valor do que o método é desfazer a necessidade de apropriação dos conteúdos escolares. É tornar a educação relativista.
CONCLUSÃO
A partir das falas das educadoras, o conceito de infância que elas possuem é desconexo com o percurso histórico que o mesmo veem se constituindo. Elas não concebem a infância como uma categoria sócio-histórica, tão pouco a partir de onde se fala da puerícia. E isso é um prejuízo enorme, visto que a análise da história da educação da primeira infância tem revelado que o juízo feito de meninice é uma construção histórica e social, coexistindo em um mesmo período multíplices ideários de crianças e de desenvolvimento infantil (OLIVEIRA, 2005).
Temos, por parte das professoras, o desconhecimento acerca dos estudos já realizados sobre infância. O entendimento mais que confuso sobre a mesma e a falta de sustentação teórica para tratar dessa categoria. Por isso, elas afirmam que a infância só é vivida pela criança quando ela pode desfrutar das mais diversas oportunidades que o mundo moderno pode oferecer, e em outra oportunidade as informantes dizem que muitos infantes estão perdendo sua meninice porque se beneficiam das tecnologias para o lazer, para a diversão.
Para elas só possuem infância as crianças que são ricas, todas aquelas que não precisam trabalhar ou que não são obrigadas a este ato, e ainda que não careçam acompanhar seus pais ao ambiente de trabalho. Estas afirmações contidas nas narrativas das docentes vão de encontro ao que defendem Kuhlmann Jr. e Fernandes (2004 apud MÜLLER; REDIN, 2007) sobre a pluralidade da concepção de infância, uma vez que não devemos encará-la como uma puerícia do passado e nem mesmo do futuro, visto que a/s meninice/s se mostra/m apontada/s pelas disputas de direitos, de deveres, de acesso a vantagens, de faltas, de restrições, estando ela/s estabelecida/s nos espaços que as mais diversas sociedades reservaram a elas. Por isso é que as crianças jamais perderão sua infância. Elas podem ter infâncias diferentes, com suas problemáticas, suas incompletudes, suas falhas... A escola, os educadores e todos os demais segmentos da sociedade devem buscar a melhora desta fase da vida do ser humano.
Uma vez que infância é uma categoria histórica e social, a análise da história da educação da primeira puerícia tem ratificado que o juízo realizado sobre meninice é uma construção histórica e social, convivendo em um mesmo momento múltiplos conceitos de crianças e de desenvolvimento infantil, já nos alerta Oliveira (2005). Essa compreensão não está no itinerário das práticas educativas, nem nas falas de nossas informantes da presente pesquisa, possuindo entendimento sincrético sobre essa categoria.
REFERÊNCIAS
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