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A Infância Sob o Olhar de Professoras da Educação Infantil: A Revelação de Uma Formação Insegura (página 3)

        

Infelizmente esse fenômeno não acontece na rotina da escola campo. Os aprendentes não possuem privacidade, não há estes pequenos espaços, muito menosuma casinha para eles interpretarem a realidade. A coletividade impera e quando há pequenos grupos de conversas ou brincando, estes são repreendidos pelos adultos da instituição escolar, limitando-os às imposições destas pessoas.

Em função do exposto, segundo Oliveira (2002), afirmamos que o locus constitui expressão de um aparelho social com suas rotinas, relações, ideologias, valores, crenças, discursos, etc. Ainda, com base na autora  

[...] o ambiente das creches e pré-escolas pode ser considerado como um campo de vivencias e explorações, zona de múltiplos recursos e possibilidades para a criança reconhecer objetos, experiências, significados de palavras e expressões, além de ampliar o mundo de sensações e percepções. Funciona esse ambiente como recurso de desenvolvimento, e, para isso, ele deve ser planejado pelo educador, parceiro privilegiado de que a criança dispõe (ibidem, p. 193).

Compartilhamos com este pensar da pesquisadora e assim corroboramos que o profissional da educação da primeira infância deve ter em mente as cinco funções relativas ao desenvolvimento infantil quando estiver planejando suas atividades, a escola também, quando estiver construindo seu projeto político pedagógico e em especial as políticas públicas voltadas à educação da primeira infância.

AS INFORMANTES DA PESQUISA E SUAS NARRATIVAS ACERCA DA CONCEPÇÃO DE INFÂNCIA 


Durante a realização da pesquisa de campo pudemos colher informações ricas e preocupantes sobre o tema desenvolvido neste trabalho. Utilizando a técnica do grupo focal, discorremos acerca das compreensões das docentes que atuam na instituição de ensino.

Os principais dados fornecidos pelo locus, fortalecendo assim o enriquecimento da análise desse trabalho, foram oriundos da técnica do grupo focal, visto que as educadoras demonstraram claramente suas ideologias, seus valores, seus sentimentos e suas incompletudes. Ao término dos três  encontros, as docentes manifestaram agradabilidade e naturalidade, dizendo que "[...] foi bom essa maneira de trabalho", "[...] melhor do que ficar respondendo um monte de papel [...]", "[...] é porque agente num lembra tudo, mas uma diz uma coisa aí agente lembra e fala [...] é bom mesmo" .

O grupo focal foi realizado durante o turno matutino com a participação de sete profissionais da educação (Hipátia, Agnesi, Somerville, Bassi, Theano, Piscopia, Sophia Germain) . A docente Hipátia cursou o Profa  e hoje estuda Pedagogia, ela leciona para uma turma com 21 estudantes com faixa etária de cinco anos de idade. Agnesi estudou magistério, o Profa e hoje é habilitada em História e Pedagogia, ensina para uma turma com 22 crianças com idade de quatro anos. A docente Somerville também estudou o Profa e cursa Pedagogia, realiza suas atividades com 20 crianças de quatro anos de idade. A Bassi cursou magistério, 4º adicional especializado em educação infantil, o Profa e Pedagogia, leciona para 23 discentes com cinco anos de idade. A Theano terminou magistério, o Profa e Pedagogia, sua turma é composta por 20 pequenos com faixa etária de quatro anos de idade.  Piscopia iniciou sua formação pelo magistério, depois participou do Profa e hoje é licenciada em Pedagogia, instrui 18 infantes com quatro anos de idade. Assim como Hipátia, Sophia Germain estuda Pedagogia, mas antes concluiu o magistério e o Profa, ela realiza suas atividades pedagógicas com 25 estudantes de cinco anos de idade.

Depois dessa breve apresentação das informantes desse trabalho partiremos para os momentos de bate-papo, para os encontros informais  que tivemos com elas acerca da visão que elas possuem sobre a infância.

Antes, cabe ressaltar que, na relação de proporcionalidade existente entre quantidade de aprendentes e docentes em sala de aula, precisamos fazer uma pausa para melhores esclarecimentos, uma vez que, segundo as informantes da pesquisa suas salas de aulas estão lotadas de crianças e somado a este fato, elas não possuem ajudantes para a realização do trabalho pedagógico. Dessa feita, as docentes afirmam sentir muita dificuldade para o desenvolvimento da prática educativa.

Contudo, esta relação segue as indicações do RCNEI (1998). Ele estabelece que quando a criança adquire maior autonomia em relação aos cuidados e interagem de maneira menos dependente com seu iguais, entre 3 e 6 anos de idade, os grupos só não podem ultrapassar 25 crianças por docente; o documento não situa o máximo para cada faixa etária. As educadoras dizem que há muitos estudantes na sala de aula, não há auxiliares e esses são uns dos agravantes que favorecem a constituição de um trabalho educativo que não seja de excelência. Concordamos que a quantidade de crianças por faixa etária, 4 e 5 anos de idade, recomendada pelo RECNEI não é o ideal por educador, sabendo que muitos pequenos de quatro anos de idade chegam ao espaço escolar sem terem vivenciado nenhum ano na creche, tendo as funções básicas de desenvolvimento motor pouco desenvolvidas. Fora que esta quantidade por sala de aula pode aumentar a cada dia, assim nos revelam as docentes:

[...]
Theano: ainda tem os ouvintes, os primos, um irmão mais novo...
Hipátia: a diretora vinha pra convencer a gente.
Piscopia: mas é porque os pais dão pressão nela aí. Os pais dizem que meu filho já sabe pegar no lápis, fazer tudo.
Todas: isso acontece mais no primeiro período!  
[...]


Entretanto não podemos aceitar este fato como uma prerrogativa para o nosso mau desempenho nas nossas atividades de trabalho. É por isso que devemos buscar as melhorias através de nossas reivindicações coletivas, compromisso pessoal, compartilhando nossos avanços educativos com os demais colegas de profissão. Nunca deixando que o mundo oficial ganhe terreno e destrua o mundo real .

A pesquisa nos revelou que as professoras possuem uma compreensão sincrética sobre puerícia. Visto que elencaram muitos temas que para elas justificam a inexistência, atualmente, da infância. Para as informantes da pesquisa, as crianças do nosso tempo já perderam a infância porque elas são exploradas no trabalho infantil, porque os pais dispensam muita responsabilidade a elas, a cultura familiar não é a de tempos atrás, vivemos na geração da informática, estamos no período histórico que furtou o lúdico das crianças e as engessou à TV e aos jogos eletrônicos; as brincadeiras não existem como antes.

Mediador: [...] Hoje em dia existe essa questão da criança num ter infância?
Piscopia: Existe porque hoje em dia tem o trabalho infantil... muito no Brasil, então muitas crianças, principalmente essas crianças do interior, elas num tem aquele brincadeira né, de infância mesmo, de criança. Elas vão trabalhar com a mãe na lavoura... essas coisas. E também na cidade. Eles... muitos meninos num têm aquelas brincadeiras de antigamente, eles vivem na informática, num têm aquela infância inocência de criança, muitos meninos têm né, mas a maioria agente ver que num tem, num brincam na rua, aquelas brincadeiras inocente mesmo. Hoje mudou muito. Eu achei.
Hipátia: Também depende muito da cultura. Tem muitos pais que tendem a criar os filhos igual eles foram criados, aí já dão muita responsabilidade pra criança e a criança num dar conta de..., porque é um adulto que tem que fazer. Às vezes até agente mesmo! A mãe que trabalha fora, tem criança maior que cuida dos menores e essa daí já é responsabilidade de um adulto, aí tem muitos pais que criam ele neste ritmo...  e ai vai perdendo a infância.
Theano: E termina ele num tendo infância.

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Como referenciar: "A Infância Sob o Olhar de Professoras da Educação Infantil: A Revelação de Uma Formação Insegura " em Só Pedagogia. Virtuous Tecnologia da Informação, 2008-2026. Consultado em 14/01/2026 às 07:05. Disponível na Internet em http://www.pedagogia.com.br/artigos/perspectivadeprofessoraseducacaoinfantil/index.php?pagina=2